II. Orlando Pantera – Miguel Manso

5I am a professional

e dançámos
lentos & digestivos

mas tentemos antes passar
o dia a limpo:

o Peugeot 205 vermelho embalado no auto-
-rádio a praia pequena a seguir ao Guincho
deserta

o teu peito nu mulato
contra as ondas o riso ladrado
da cadela entrando e não entrando
no mar

as rochas o mexilhão a navalha
o regresso aos poucos a tua casa
coentros água doce tachos

o lume
onde cozeste o pão
e que ateaste usando as páginas da lista telefônica
– queimando toda a rede fixa de Carcavelos-
o pássaro

morto na escrivaninha
o desenho a meio

depois a noite a lua

o alpendre onde já não se ouvia o mar
a cadela fingia o sono no tapete suspirava
no fumo dos cigarros

ao fundo do jardim sobre a relva
deixámos várias caixas de bolachas
adaptados para a fotografia pinhole
abríamos o obturador e o tempo de
exposição era toda a madrugada

Miguel-Manso, Tojo: poemas escolhidos (Relógio d’água, 2013)
Foto: Vítor Dias (Dias de fotografia)

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