“Agora que nada mais importa” – Golgona Anghel

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Agora que nada mais importa,
consolamos as tarde de Domingo
com bifanas das tasquinhas montadas antes do jogo,
alguns boatos frescos, discussões sobre Satre,
o pós-estruturalismo e essa piada
que qualquer outro marxista parolo
parece esperto ao pé de um anarquista.
O único interesse que ainda temos realmente em comum
é dividir o aluguer
e uma garrafa de tinto.
Ás vezes, ainda recebemos algum convite,
e olha, não é fácil, com o miúdo e tal.
Mas acabamos por ficar em casa.

O desinteresse acumula-se à minha volta
como as camadas seculares
no tronco de um sequoia.
Fico imune as quiexinhas.
Lavo sozinho a minha roupa.
A minha língua está a ganhar uma espessura lenhosa.
No lugar do grito,
uma greta.
Mãos nos bolsos,
bico calado.
Evito vitrinas e espelhos.
Tenho medo que a verdade
me possa desfigurar o rosto.

Golgona Anghel, Como uma flor de plástico na montra de um talho (Assírio & Alvim, 2013)
Foto: Vítor Dias

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