As coisas não são sempre como esperávamos que fossem – João Vasco Coelho

 

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De manhã cedo,
as mulheres levam seguras
um primeiro suor debaixo dos braços.
Tomam assento, de mão erguida,
pendente à luz parcial,
lembram a última primavera.

Os seus corpos, no autocarro,
semelhantes a figurinos
baços contraídos, sugerem
um sentido de necessidade,
uma vontade inclinada de confidências.

Os filhos lêem com o dedo,
perguntando, exigentes de cuidados difíceis,
a que horas chega o pai.
Algumas mulheres respondem,
suavemente – são as mães.
Outras, confidenciam
a sua sorte, alheia a um fértil
rio corrente: sim, maria, é como te disse,
tenho enviado currículos.

João Vasco Coelho, Na ordem do dia (artefatos, 2013)
Foto: Vítor Dias

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