Talvez – Ben Clark

4Quando não havia trabalho e as pessoas caminhavam
de norte a sul fugindo de um deus menino
selvagem, quando com poucas
palavras era fácil fazer fogo,
seguramente existiu um homem bruto,
o primeiro de todos os que haveriam
de povoar os corredores com uma nova mansidão.
Devia parecer-se em algo a mim,
talvez,
olhando para a luz do horizonte
e caminhando só.
Eu não sei se ele chegou a intuir
o incrível número de não natos
de corpos e de quilômetros que ainda
faltavam …
E se tivesse contemplado o vasto horror incumprido
toda a dor que se podia evitar
se abraçasse aquele menino deus do norte
se quieto fosse fóssil, pedra, nada.
Se tivesse por diante guerras e noites cegas
e o pranto e as meninas sérias  vestidas de uniforme;
um exército de quartas-feiras sem fim marchando para trás,
afundando-se no seu peito
sussurrando os nomes dos mortos
que nunca nasceriam se ele morresse.
Se este avô impossível pudesse ver tudo
e num instante lúcido
pudesse vislumbrar-te aqui sentada,
fruto estranho da suja deriva dos milénios,
talvez tudo lhe parecesse bem.

Ben Clack, La fiera (Editorial Sloper, 2014)
Foto: Vítor Dias

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